quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Carta à Aylan

Abdullah Kurdi,
Afinal, a guerra serve para quê?
Afinal, a Geografia serve para quê?
Yves Lacoste diria que, em primeiro lugar, ela serve para fazer a guerra.
Eu, futuro geógrafo, servirei à isto também?
Servirei para matar?
Ou então, de modo mais “didático”, servirei para destruir sonhos?
Sim, Aylan Kurdi teve seus sonhos destruídos. Estes se foram: o cinismo do mar turco os levou.
Afogaram-se sonhos.
Sonhos de um menino, sonhos de uma família.
Do mesmo modo que os sonhos de Aylan foram destruídos, posso eu estar destruindo vidas de milhares de alunos meus...
E infelizmente o que mais falta no Grande e Inteligente SER HUMANO, é ser...
humano.
Não houve mar, por mais bravo que estivesse, por mais fundo que fosse, que eles não puderam ter.
Não houve canto do planeta, por mais inóspito que foi, que seja ou que é, que eles não puderam visitar.
Não houve comida, por mais rara que fosse, por mais longe que estivesse, que não puderam comer.
Que desgraça! Que repúdio!
Mas nem eles são só maus, nem nós só bons.
Nós somos uma criação da Europa, dos europeus: seu sonho na exatidão mais brutal, seu pensamento, seu desenho, seu costume.
Da mesma maneira que o mar levou teus sonhos, Aylan, minha profissão pode levar sonhos de muitos.
Impossível compreender, ao menos por alguém que pense no teu sorriso.
Quase impossível compreender que a minha Geografia...
tire inúmeros sorrisos.
Minha tristeza gostaria de se misturar com a tua, Sr. Abdullah Kurdi, para que soubestes que não somos todos assim, que preferiria a saúde, que preferiria que Aylan brincasse na calçada com outros amigos, que brincasse convosco.
Desculpe-me por não possuir força capaz para impossibilitar o acontecido. Desculpe-me por eles serem tão egoístas, gananciosos, egocêntricos e sem compaixão (desculpe-me por, às vezes, sermos como eles).
Desculpe-me por sua dor.
Mas culpe-me se terei eu, enquanto professor, enquanto agente em ato, o poder de ser a potência para que meus alunos sejam capazes de serem mais humanos, para que meus alunos sejam capazes de entender o que nos levou a estes acontecimentos e não só entenderem como de certa forma, evitarem, e não conseguir aplicá-la.
Pelo lógico se sabe que são chances minúsculas de alguém tão distante evitar tragédias deste tipo.
Mas pelo lógico, também, sabe-se que aqui, em locais interioranos, podemos muito.
E culpe-me se um dia deixar de provocar nos meus alunos o prazer em ajudar o próximo, o prazer e a dor de se colocar no lugar do próximo.
Culpe-me se a minha Geografia não for, no mínimo, instigante.
Culpe-me se a minha Geografia fizer com que meus alunos se vejam Aylan’s (com sonhos destruídos).
Culpe-me se eu fizer com que a Geografia sirva à guerra.
Minha dor, não tão grande quanto a do Senhor, se refletirá no evitar.
No evitar que meus alunos se sintam donos do mundo.
No evitar que achem que suas vidas são superiores a de alguém.
Minha força e minha tristeza, minha angústia por pessoas melhores, se refletirá no dia a dia.
Se refletirá no humano, pois só sendo, farei com que eles também sejam.
Att. Um licenciando em Geografia.

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